Tendências em Governança de TI: O Que Empresas de Médio e Grande Porte Precisam Adotar Agora

A governança de TI deixou de ser pauta exclusiva do CIO. Ela chegou à sala do conselho e as empresas que ainda não perceberam isso estão tomando decisões estratégicas no escuro. 

Em empresas de médio e grande porte, a tecnologia da informação já não é infraestrutura de suporte. É o eixo sobre o qual giram operações, receita, conformidade e reputação. Portanto, governar essa tecnologia com seriedade deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser requisito de sobrevivência. 

Neste artigo, você vai entender quais tendências em governança de TI estão redefinindo o trabalho das lideranças em 2025 e 2026 e o que um conselho bem preparado precisa saber para orientar essa agenda com autoridade. 

O Problema que Ninguém Quer Nomear nas Reuniões de Conselho 

Existe um padrão silencioso em muitas organizações de médio e grande porte. A área de TI cresce em complexidade, orçamento e criticidade — enquanto o conselho aprova investimentos sem entender exatamente o que está sendo comprado, para quê e com qual risco associado. 

Esse vácuo de governança tem consequências concretas. Projetos de transformação digital que demoram o dobro do previsto. Incidentes de segurança que chegam ao conselho já como crise. Conformidade com a LGPD tratada como projeto de TI, quando deveria ser política corporativa. 

A governança de TI não existe para controlar a tecnologia. Ela existe para garantir que a tecnologia produza valor real para o negócio com risco gerenciado e decisões tomadas pelas pessoas certas, no nível certo da organização. 

O Que É Governança de TI (e o Que Ela Não É) 

A governança de TI é o conjunto de práticas, estruturas e processos que alinham as decisões de tecnologia aos objetivos estratégicos da organização. Ela define quem decide sobre TI, com base em quê, e como essas decisões são monitoradas. 

É importante distinguir governança de TI de gestão de TI. A gestão cuida da operação garantir que os sistemas funcionem, que os projetos sejam entregues, que o suporte aconteça. A governança atua em outro nível: ela define os objetivos, os limites de risco e os critérios pelos quais o desempenho da TI será avaliado. 

Frameworks como o COBIT 2019 e o ITIL v4 são as principais referências globais para estruturar essa distinção na prática. O COBIT foca na governança estratégica e no controle; o ITIL v4 na entrega de valor por serviços de TI. Organizações que combinam os dois constroem uma base sólida de governança operacional e estratégica. 

As Tendências que Estão Redefinindo a Governança de TI 

Não existe uma única tendência dominante. O que se observa em empresas de médio e grande porte bem governadas é uma convergência de frentes — cada uma com implicações diretas para o conselho. 

IA como Vetor de Risco e Oportunidade Simultâneos 

A inteligência artificial entrou definitivamente na agenda de governança de TI não como projeto de inovação, mas como fator de risco corporativo. Modelos de IA tomam decisões, processam dados sensíveis e automatizam processos críticos. Portanto, governar o uso de IA passou a ser tão importante quanto governar qualquer outro ativo estratégico da organização. 

Para o conselho, isso significa perguntas novas e urgentes: quem é responsável pelas decisões que a IA toma? Como auditamos os modelos? Quais dados estão sendo usados no treinamento? Frameworks como o COBIT já oferecem orientação específica para governança de IA mas a maior parte das organizações ainda não adaptou seus processos de governança a essa realidade. 

Zero Trust: Segurança que Assume que a Ameaça Já Está Dentro 

O modelo de segurança por perímetro — que protegia apenas o “lado de fora” da rede — ficou obsoleto. Ambientes híbridos, acesso remoto e múltiplos fornecedores tornaram impossível definir onde termina o ambiente “seguro”. Além disso, ataques sofisticados frequentemente partem de dentro da própria organização. 

O Zero Trust é a resposta a essa realidade. Nesse modelo, nenhum usuário ou dispositivo é automaticamente confiável — mesmo que esteja dentro da rede corporativa. Cada acesso é verificado, autenticado e monitorado. Para empresas de médio e grande porte, adotar Zero Trust não é apenas uma decisão técnica: é uma decisão de governança de TI, que define a política de acesso à informação em toda a organização. 

Governança de Dados e LGPD: da Conformidade ao Controle 

A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) completou sua fase de adaptação inicial. O que se vê agora é uma segunda onda de organizações que cumpriram os requisitos básicos mas ainda não construíram governança de dados de verdade. 

Governar dados significa saber quais dados existem, onde estão, quem acessa, por quanto tempo são retidos e para qual finalidade foram coletados. Essa visibilidade é ao mesmo tempo um requisito legal e uma vantagem competitiva. Portanto, organizações que tratam a LGPD como projeto fechado perdem a oportunidade de transformá-la em estrutura de valor. 

FinOps: Governança do Orçamento de TI na Era Cloud 

Com a migração massiva para ambientes de nuvem e multicloud, o custo de TI passou a ser variável, dinâmico e difícil de prever. Assim, surgiu o FinOps, uma disciplina que combina finanças, operações e tecnologia para garantir que os investimentos em cloud gerem valor real, não apenas consumo descontrolado. 

Para o conselho, o FinOps traz uma mudança importante: o orçamento de TI precisa ser monitorado com a mesma frequência e granularidade que outras linhas de custo estratégicas. Além disso, decisões de arquitetura de cloud têm impacto financeiro imediato e precisam ser avaliadas com essa lente. 

ITIL v4 e COBIT 2019: Frameworks que Evoluíram com o Mercado 

As duas principais referências em governança de TI se atualizaram para refletir um mundo mais ágil, mais automatizado e mais orientado a valor. O ITIL v4 incorporou práticas de DevOps, metodologias ágeis e foco em resultados de negócio não apenas em processos internos de TI. O COBIT 2019 ampliou sua capacidade de personalização, permitindo que cada organização adapte o framework ao seu nível de maturidade e setor de atuação. 

O ponto central dessa evolução é a mesma: frameworks não existem para produzir documentação. Existem para orientar decisões e quanto mais alinhados à realidade da organização, maior o valor que entregam. 

O Papel do Conselho na Governança de TI 

A governança de TI não é uma responsabilidade exclusiva do CIO ou da área de tecnologia. Ela começa no conselho.

É o conselho que define o apetite a risco da organização — e o risco de TI é hoje um dos mais relevantes. É o conselho que aprova a estratégia digital e os investimentos associados. É o conselho que supervisiona se a LGPD está sendo cumprida não apenas como checklist, mas como política corporativa viva. 

Para exercer esse papel com qualidade, conselheiros não precisam dominar código ou arquitetura de sistemas. Precisam saber quais perguntas fazer, quais indicadores monitorar e quando escalar uma decisão de TI para o nível estratégico que ela merece. 

O maior risco de governança de TI nas organizações brasileiras não é tecnológico. É a ausência de conselheiros preparados para supervisionar a tecnologia como ativo estratégico. 

Por Onde Começar: Um Caminho Prático para Organizações 

A adoção de governança de TI não exige uma transformação imediata de todos os processos. As organizações que obtêm melhores resultados começam por um diagnóstico honesto e avançam de forma estruturada. 

O primeiro passo é mapear o nível de maturidade atual da governança de TI — o que existe de formalizado, o que é informal e o que simplesmente não existe. Ferramentas como o modelo de maturidade do COBIT permitem fazer esse diagnóstico de forma objetiva. 

Em seguida, é necessário definir prioridades com base no risco. Para uma empresa de médio porte em crescimento acelerado, cibersegurança e governança de dados costumam ser os pontos críticos. Para uma grande corporação com operações multicloud, FinOps e Zero Trust podem ser a prioridade imediata. 

Por fim, o engajamento do conselho é inegociável. Não basta que a área de TI construa um framework de governança impecável se ele nunca chega à pauta do conselho com clareza e linguagem estratégica. A governança de TI que fica restrita à área técnica não é governança  é gestão com outro nome. 

Conclusão 

A governança de TI é, cada vez mais, governança corporativa. As tendências de 2025 e 2026 de IA a Zero Trust, de FinOps a LGPD, confirmam que tecnologia e estratégia de negócio são inseparáveis. 

Conselhos que entendem isso chegam às reuniões com as perguntas certas. Os que não entendem chegam com aprovações no escuro. 

A tecnologia não vai esperar. E as organizações que continuam tratando governança de TI como responsabilidade exclusiva da área técnica acumulam risco enquanto imaginam que estão seguros. 

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